A Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo) interrompeu o pregão pela sexta vez em pouco mais de 20 dias na jornada desta quarta-feira, mostrando que volatilidade continua a ser a palavra de ordem nos mercados financeiros. A temporada de divulgação de balanços corporativos reforçou o pessimismo dos investidores sobre a perspectiva de uma recessão global.
As oscilações da Bolsa "testaram" os nervos dos participantes do mercado financeiro várias vezes ao dia: por volta das 15h, às 16h, para desabar 10,03% às 17h17, quando o "circuit breaker" foi acionado, suspendendo o pregão por meia hora. Devido a essa interrupção, o expediente foi prorrogado para as 18h18. O "after market" foi ajustado para o horário das 19h às 19h30.
Em um dia bastante turbulento, o Ibovespa encerrou o pregão em baixa de 10,18%, aos 35.069 pontos. O giro financeiro foi baixo, de R$ 4,42 bilhões. Em Nova York, no epicentro da crise financeiro, a Bolsa despencou 5,69%.
O dólar comercial foi cotado a R$ 2,382 para venda, o que representa um incremento de 6,76% sobre a cotação de ontem. A taxa de risco-país disparou 25,83% e atingiu os 677 pontos. O BC agiu por três vezes no mercado de moeda, primeiro com um leilão de venda de dólares, e com dois leilões de "swap" cambial.
"Foi um conjunto de fatores que atuou para derrubar a Bolsa dessa forma. Um desses fatores foi essa medida provisória do governo para estatização dos bancos, que pegou muito mal no mercado. Passou a impressão de que há instituições financeiras realmente com problemas", afirmou Boris Kogan, operador da corrretora Walpires. "O primeiro-ministro britânico, o Gordon Brown, também anunciou que a Inglaterra deve entrar em recessão, justamente uma das maiores economias do mundo. E nós tivemos ainda balanços muito ruins nos EUA", acrescenta o operador.
Outros analistas notam ainda ação de investidores estrangeiros, fazendo caixa com a venda de ações brasileiras para cobrir necessidades de caixa no exterior.
"O que nos parece é que os mercados ainda não se alinharam com os pacotes já anunciados pelos governos [da Europa e dos EUA] e que representam mais de US$ 3 trilhões [para ajudar o sistema financeiro]. Esses pacotes vão ajudar o sistema financeiro a se capitalizar no médio prazo. O problema é que muitos bancos precisam de dinheiro para ontem", nota Saulo Sabbá, diretor de gestão da Máxima Asset Management. "Ninguém vende ação da Petrobras ou da Vale [do Rio Doce] a R$ 22 porque acha que está cara", reforça.
Estatização
O governo anunciou hoje que autorizou o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal a adquirirem participações em instituições financeiras no país sem passar por um processo de licitação.
O ministro Guido Mantega (Fazenda) afirmou que muitas instituições financeiras estão com problemas de caixa no país. "Não tem banco quebrando no Brasil. Isso não isenta o sistema financeiro de problema de liquidez. Se não tivesse, o BC não estaria devolvendo o compulsório, não haveria compra de carteira", afirmou ele.
Mantega também afirmou que caso algumas instituições financeiras sejam estatizadas, esses bancos devem ser revendidos, dentro das normas da medida provisória publicada hoje. "É uma medida que responde à necessidade do momento, de crise de liquidez internacional que tem alguma repercussão no Brasil. Depois de restabelecidos o crédito, essas instituições poderão ser revendidas", afirmou o ministro.
A opinião negativa do mercado financeiro sobre a medida provisória não foi unânime. Alguns analistas viram com bons olhos a iniciativa do governo. "O sistema financeiro aqui no Brasil precisa de liquidez, sim. Os bancos de médio porte estão carregados de créditos consignados, que podem repassar e fazer caixa. O problema é no curto prazo: algumas instituições financeiras estão sofrendo um pouco fechar caixa", comenta Saulo Sabbá, da Máxima.
"Aqui, nós vamos temos algumas vantagens sobre os bancos no exterior. Como os créditos são mais homogêneos, seria fácil juntar alguns ativos num mesmo fundo e vender a 130% do CDI, por exemplo. Os bancos podem ser capitalizados mais rapidamente", avalia.
Empresas
Ontem à noite, o portal Yahoo! revelou um lucro líquido de US$ 54,34 milhões no terceiro trimestre, número 64% abaixo dos ganhos registrados no mesmo período em 2007.
E hoje, o banco Wachovia anunciou um prejuízo de US$ 23,9 bilhões no terceiro trimestre. Segundo agências internacionais, trata-se da maior perda já registrada por uma instituição financeira desde o início da crise dos créditos "subprime".
A brasileira Suzano Papel e Celulose informou hoje prejuízo líquido de R$ 293,07 milhões no terceiro trimestre, ante um lucro de R$ 168,34 milhões em idêntico período em 2007. No terceiro trimestre do ano passado, as receitas financeiras haviam superado as despesas em R$ 84,06 milhões. Neste ano, no entanto, o chamado "resultado financeiro líquido" (receitas menos despesas) ficou negativo em R$ 653,51 milhões.
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