Em carta encaminhada aos funcionários, o presidente da Embraer, Frederico Fleury Curado, responsabilizou a crise pela demissão de mais de 4.000 funcionários e afirmou que a situação não é passageira. Ele admite que a empresa assumiu um novo e menor patamar de entregas e que a atividade industrial caiu 30%.
Curado reforçou que a crise financeira não é um problema temporário. "que pode se resolver a curto prazo e que poderia viabilizar algum tipo de solução transitória". "Estamos, sim, diante de um novo patamar de entregas, bem menor do que aquele dos últimos dois anos, e sem uma clara visibilidade de quando poderá voltar a crescer".
As demissões vão atingir cerca de 20% do efetivo de 21.362 empregados da empresa e se concentram na mão-de-obra operacional, administrativa e lideranças, incluindo a "eliminação de um nível hierárquico de sua estrutura gerencial".
O presidente afirmou que, a "despeito dos esforços positivos" do governo brasileiros e de outros países, "a situação mundial ainda continua se deteriorando e não se prevê reação a curto prazo".
"As regiões que vinham crescendo em importância em nossa carteira de pedidos, como Oriente Médio, Ásia e América Latina, também vêm sofrendo fortes desacelerações econômicas, com impactos diretos e imediatos sobre a atividade de transporte aéreo,"
Encomendas
O executivo também relembra comunicados anteriores, de novembro do ano passado, quando alertava que nem mesmo a extensa carteira de pedidos seria suficiente "para assegurar receita futura, pois a efetiva capacidade de os clientes receberem suas aeronaves é que ditaria nosso ritmo e nível de produção".
"Nesse últimos quatro meses verificamos uma crescente adversidade para as linhas aéreas em todo o mundo e tivemos um grande número de solicitações de adiamento de aeronaves, com impacto direto sobre nossas entregas, receitas e cadências e produção".
O presidente também afirma na carta que a situação foi agravada nos últimos meses com o mercados de aviação comercial em "uma espiral descendente, causando uma quase paralisação de novas vendas e grande quantidade de pedidos de cancelamentos e adiamentos das encomendas existentes".
"Apesar de todos os esforços junto aos clientes nesse período, tanto da aviação comercial quanto executiva, fomos impactados por um grande volume de adiamentos, muito deles por mais de dois anos, e já não é mais possível sustentar os atuais níveis de produção e entregas planejadas para 2009".
Produção
Segundo o presidente, de forma agregada, a atividade industrial da Embraer está se reduzindo em mais de 30%, "o que torna absolutamente inevitável que façamos um ajuste em nossa estrutura e base de custos".
"No total, meus colegas, cerca de 20% de nossas pessoas estão nos deixando nesse momento e muito de nós, que atravessamos diversas fases da vida de nossa empresa, sabemos exatamente como esse momento é difícil para todos, não apenas para aqueles que saem, mas também para os que ficam".
Curado esclarece que, em meio as demissões, reduzirá cargos de chefia e termina ressaltando que a Embraer já passou por crises anteriores e que, se a empresa retomar o ritmo verificado antes do agravamento da crise, poderá recontratar no futuro.
Estimativa
A Embraer também revisou suas estimativas para 2009. A empresa estima entregar 242 aeronaves no período (ante 270 na previsão anterior), com uma receita prevista de US$ 5,5 bilhões (ante US$ 6,3 bilhões). Por conta da redução da estimativa de receita, a empresa refez sua previsão de investimentos para US$ 350 milhões neste ano (ante US$ 450 milhões).
Terceira maior fabricante de jatos comerciais do mundo, atrás da Boeing e da Airbus, a Embraer informou que, apesar de ter sede no Brasil, depende fundamentalmente do mercado externo e do desempenho da economia global --mais de 90% de suas receitas são provenientes de exportações--, e que não se beneficia do aquecimento do mercado doméstico brasileiro.
"A Embraer expressa seu profundo respeito às pessoas que ora deixam suas posições na empresa. Respeito pelo trabalho que desenvolveram, pelo tempo de convívio profissional e pessoal, pelo momento difícil que atravessam", diz a empresa.
Protesto
O Sindicato dos Metalúrgico de São José dos Campos informou que vai iniciar protestos contra as demissões da empresa e que o assunto será debatido com o prefeito da cidade, onde fica a sede da empresa, Eduardo Cury.
"Esperamos que o prefeito adote medidas práticas e urgentes para intervir nessa grave situação. Essas demissões terão um impacto extremamente negativo em toda a cadeia produtiva da cidade", afirmou o presidente do sindicato, Adilson dos Santos.
Entre as alternativas defendidas pelo sindicato para evitar demissões estão a redução da jornada de trabalho sem redução de salários e com estabilidade no emprego. Segundo a entidade, a Embraer tem jornada de 43 horas semanais.
O sindicato apontou ainda que a Embraer, desde sua privatização, em 1994, recebeu cerca de US$ 7 bilhões por meio de financiamentos do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). A empresa não confirma os números.
A Embraer já fabricou e vendeu mais de 4.900 aviões que operam em 78 países, nos cinco continentes.
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